Mil e uma palavras para conhecer antes de crescer...

domingo, 20 de janeiro de 2013

Uma porta no jardim

Queridos leitores,

Os habituais já sabem, os que chegam agora ficam a saber: aqui, em cada mês, podem ler as aventuras e desventuras deste lugar-perdido-em-sabe-se-lá-onde-um-pouco-em-tudo-e-nada-parecido-com-o-lugar-onde-cada-um-de-vós-vive.
Neste lugar, há uma casa onde mora uma Bruxinha e um Gato. Uma Bruxinha, sim Bruxinha e não bruxa porque a moça é jovem, mesmo no diferente tempo do mundo da feitiçaria, e mais dada à curiosidade do que à maldade. Aqui vão acontecendo coisas estranhas, coisas normais, coisas triviais, da vida das casas que guardam muitos mistérios como todas as que encerram uma enorme biblioteca.

Hoje, dia frio de janeiro, apareceu no jardim um caixote retangular de madeira robusta, muito pesado, sem nome, destinatário ou remetente, sem morada. Como tinha vindo ali parar não se sabia. Podia ser um engano. Era preciso abrir para saber.

A Bruxinha telefonou ao senhor Aníbal, canalizador, carpinteiro, faz-tudo muito hábil e num instante a caixa foi desmontada prego a prego, tábua a tábua. Lá dentro estava uma porta branca, com ombreiras azuis, bem bonita por sinal. Mas não era uma porta simples e vulgar pois ficou no chão ficou muito direita no seu lugar de porta como se colocada entre invisíveis paredes e não mais foi possível movê-la.
O senhor Aníbal disse que voltaria mais tarde para estudar uma solução. Agora tinha de ir colocar vidros numa janela da escola, partidos por uma bola mais afoita. Acontecia quase todas as semanas. Ele sabia bem quem era o culpado mas por pundonor não revelava o nome.

História de Sílvia Alves para o blogue Sabe Mais k(que) os teus Pais
Lá dentro estava uma porta branca, com ombreiras azuis...

A Bruxinha regressou aos seus afazeres. Apenas o Gato ficou no jardim. Sentia nos bigodes que ali havia qualquer coisa ainda não explicada para acontecer. Subiu a uma árvore, enroscou-se que a manhã estava mesmo muito fria, e ficou a olhar de olhos bem abertos.
Passou o gato pelas brasas, que é o mesmo que dizer que adormeceu, e quando acordou tinha nevado e havia agora um lençol branco e uma porta branca com ombreira azul no meio no meio do jardim. “Maria! Bem te disse que precisavas de arranjar algo para as orelhas, patas e cauda de um pobre bichano enregelado!” - pensou o Gato.
Mas logo se esqueceu do frio. Não queria acreditar no que os seus olhos redondos de gato viam.

- Abrenúncio!

História de Sílvia Alves para o blogue Sabe Mais k(que) os teus Pais

A porta abriu-se, ou será fechou-se? Moveu-se. Certo é que se moveu, várias vezes… Como se do seu lado de fora, que não importa agora qual, estivesse o jardim e do outro lado, do lado de dentro, sabe-se lá onde, houvesse uma casa cheia de gente.
Saiu uma senhora que começou a limpar a neve; um senhor que se pôs a olhar as árvores com ar muito satisfeito dizendo que os limões estavam mesmo no ponto para uma bela limonada; uma miúda a olhar para a casa a perguntar se não moraria ali um príncipe? “Miúda estúpida. Não sabe que vivemos numa República?”- pensa o Gato.
E por fim um Espinafre alto e magro que escava a neve, pega em punhados de terra avaliando que é terreno bom para plantar.

O Gato ainda considera estar no meio de um sonho mas logo chega a Bruxinha que pergunta:
- O que se passa? De onde é que saíram todos?
- Não se preocupe, menina, nós vamos já para dentro.
- Dentro onde?
- Dentro é um lugar que ninguém sabe.
- Diz sabiamente o senhor.
- Mas fora é o meu jardim! Alguém me explica como chegaram aqui?
Então o senhor e a senhora falam da mudança de casa. Como mudar de casa é muito complicado mudaram apenas a porta. Parecia mais simples mas se calhar houve um erro na entrega…
- Eu bem te disse, meu querido, que era preciso um mapa.
- Eu até plantei um GPS - diz o grande Espinafre - mas o cavalheiro insiste sempre em interpretar as estrelas!
Um outro personagem aparece e diz que não quer saber de enganos. Que se recusa a desparafusar o que seja!!
- E tu quem és? – pergunta a Bruxinha.
- Dr. Francisco Parafuso, Xico Parafuso. Ao seu dispor, menina, para colocar tudo no sítio e na ordem.
O senhor Aníbal entretanto regressa e não percebe nada. O Xico Parafuso começa a conversar com ele sobre ferramentas. O senhor e senhora conversam sobre o que fazer. O grande Espinafre diz que arranja uma solução desde que saibam qual.
- Ai, ai, ai... Que grande confusão! - diz a Bruxinha - logo hoje que eu estou com tanto trabalho… Não sei se vou ter tempo para os ajudar.
- Não se preocupe. Não temos pressa. E já que aqui estamos vamos aproveitar para conhecer a cidade. Há algum lugar onde comprar jornais?
- Sim, há o quiosque do senhor Alfredo, ao fundo da rua.
- E pão?
- Na senhora Aurora, no mercado velho, logo a seguir.
A Bruxinha volta para casa, vai até à biblioteca e começa a procura entre os livros. O Gato acompanha-a.
- Tu achas que vais encontrar aí uma solução? Nem sempre os livros são soluções – diz o Gato.
- Os livros não são as soluções mas mostram caminhos para elas. Deixa ver… Ah! Encontrei! - Diz a Bruxinha entusiasmada - Este livro tem por certo respostas. Chama-se ”A Porta” e tenho a certeza que aquela gente toda saiu daqui… Eu acho que temos um livro espalhado no quintal. Vamos lá reler a história...


Quando a Bruxinha acaba de reler o livro volta ao Jardim mas não encontra ninguém.
Bate, levemente, à porta e o Grande Espinafre veio abrir.
- Simpático Espinafre preciso que me ajudes.
- É para isso que eu sirvo: para ajudar. Tenho ajudas de todos os tamanhos e feitios. Sou um alfaiate da ajuda. Ajudas à medida e a gosto. Soluções rápidas, indolores e eficazes.
- Bem, só nos faltava um político - diz o Gato.
- E então, gatinho, que mal há nos políticos? E não podemos viver sem a política – sentencia o senhor que acaba de chegar carregado de jornais.
- Por favor, discutam isso mais tarde. Hão de ter tempo e oportunidade. Esta família não pode ficar indefinidamente no nosso jardim, no meio da neve, a entra e sair de um porta – diz a Bruxinha.
- Apoiado! Tudo tem de estar nos seus sítios. Fiquem aí ao pé do limoeiro que eu já trouxe os pregos – diz o senhor Xico Parafuso que acabado de chegar da visita à oficina do senhor Aníbal.
- Senhor Dr. Francisco Parafuso para que tudo esteja nos seus sítios vós estaríeis dentro de um livro entre linhas certinhas, palavras alinhadas e letras contadas - diz o Gato.
- Sim, entre linhas certinhas é um bom sitio para estar. Diz o Xico Parafuso com um ar sonhador.
- Mas eu gosto de andar por onde me dá a veneta. E este sítio é muito agradável, gostei muito de conhecer o senhor Alfredo dos jornais.
- Mas afinal em que posso ajudar? - pergunta o Grande Espinafre em voz baixa à Bruxinha.
- Na sua horta pode plantar tudo, tudo, tudo, mesmo tudo? – pergunta a Bruxinha.
-Tudinho!
- Então precisamos de um escritor, não um qualquer mas em este em especial este.

Fotografia de Sílvia Alves

- Esse?!
-Sim, algum problema?
-Não, não. Nenhum problema. Mas essa cara não me é estranha… Acho que já nos cruzámos em algum lugar.
- É natural. É possível. O mundo é um lugar redondo e cada vez mais pequeno…
- Bruxinha, dá-me dez minutos. E já to trago pronto para resolver qualquer situação. Queres que plante também canetas, papel? Ou será melhor um computador?
- Não é preciso isso tudo eu tenho na minha mesa de trabalho.
- Podias era plantar um príncipe! Diz a miúda que chega entretanto desanimada de uma visita ao Castelo.
- Deixa de me seringar o juízo com o teu príncipe!- pede o Espinafre.
- Eu também estou a gostar deste lugar. É calmo. Tem gente tão simpática. A D. Aurora até me ajudou a trazer as compras - disse a senhora – pena que nos tenhamos enganado.
- Não fiques triste. Onde estivermos juntos é o nosso lugar - diz o marido dando-lhe beijinhos.
- Agora tenho de sair. O meu Gato fica atento ao que precisarem. Gatinho, quando o Espinafre chegar entrega este bilhete.

“Caro escritor, hoje, pela manhã, surgiu do nada esta porta. Não vem acompanhada de uma casa como é vulgar e expectável nas portas mas de uma família. E uma família tem sempre um lado de dentro e um lado de fora. O lado de fora até que pode ser aqui no meu quintal mas o lado de dentro só eles o sabem. Eles ou o senhor escritor o imaginou a querer sabe-se-lá-o-quê-que-agora-lhes-falta. Estas aventuras devem ser resultado de alguma experiência sua. E agora? Eu tenho de sair que o tempo é coisa que nem nós as Bruxas podemos mudar. Deixo-o com a tarefa da porta e do transporte certo da família. Tem a minha casa a seu dispor e contento. A biblioteca, papel e canetas, computador e Net. Uma lareira acesa e uma cozinha ao fundo das escadas do lado esquerdo. O meu Gato ajudará no que precisar (aviso-o de que tem um humor imprevisível, de gato). Instale-se. Faça de conta que a casa é sua. Por favor pense na senhora, neste tempo de frio, se calhar é melhor arranjar um lugar quentinho, cheio de sol. Há de por certo encontrar uma saída ou uma entrada. Enfim uma solução! Um beijo. Bruxinha”

O escritor leu o bilhete da Bruxinha ainda um pouco baralhado. Lembrava-se vagamente de se ter sentado a ler… “Se calhar adormeci e estou a sonhar” - pensou. Subiu as escadas entrou na biblioteca olhou pela janela, de facto havia uma porta no meio da neve e gente que lhe parecia familiar. A lareira estava acesa e em frente havia uma poltrona com um ar muito confortável. Sentou-se abriu um livro e acabou por adormecer.
- Senhor escritor, é hora de jantar - disse o Gato - faça o obséquio de me acompanhar à cozinha.
- Mas ainda não acabei, ou melhor, nem comecei o que me foi pedido.
- Começa ou acaba depois. Agora tem de comer. A Bruxinha disse que devia comer a horas certas.
- Olha um gato que fala!
- Ora, há gatos ladinos e coelhos falantes desde sempre. De que se espanta? Há mais de cem anos que o seu colega de escrita Lewis Carrol escreveu sobre isso. Ou não leu “Alice no País das Maravilhas”?
- Claro que li! Mas eu ainda me espanto de muita coisa, gatito. Quando parar de me espantar paro de escrever, o que não tenciono deixar que aconteça.
- Então não tem ainda solução para a porta?
- Não, as coisas levam o seu tempo. Não se muda o rumo de uma história assim sem mais nem menos?
- Não? Ainda ontem estavam todos nos seus sítios e hoje estão ali no jardim!
- Acontece, Gato, raramente, mas acontece. Os personagens ganham vida própria, isso torna tudo muito mais difícil. É preciso levar em conta as suas próprias vontades, demora um pouco mais a resolver.
- Ai que mau… Ainda se fosse verão, mas com este frio e neve não podem ficar ali.
- Claro que não podem ficar ali. Têm de vir jantar connosco.
E assim o escritor, o senhor, a senhora, a miúda que se julga princesa e o Dr. Xico Parafuso sentaram-se ao redor da grande mesa da cozinha a comer uma sopa quentinha e um belo guisado de legumes com codornizes, numa animada conversa como se se conhecessem desde sempre.
Até que, no fim do jantar, o Gato, achando que já era tarde e havia ainda uma história para resolver, subiu para o colo do escritor e perguntou com lhaneza:
- Desculpe… Não é que eu queira interromper. A conversa está muito animada, estão todos contentes. Mas, não acha que se está a esquecer de alguma coisa?
- Pois estou! Que cabeça a minha. Falta o café!
(…)
Texto: Sílvia Alves
Ilustrações: Maria del Toro 

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